Laguna 350 Anos: Anita, a revolucionária que inspirou paz e igualdade social
Ana Maria de Jesus Ribeiro, universalmente conhecida como Anita Garibaldi, nasceu em Laguna, na então Província de Santa Catarina, em 30 de agosto de 1821. Sua existência, embora breve, transformou-a em uma das personagens mais extraordinárias do século XIX, não apenas pela participação nas lutas republicanas da América do Sul e da Europa, mas, sobretudo, por haver convertido sua própria vida em um permanente testemunho de liberdade, coragem, igualdade e fraternidade entre os povos.

Muito além da figura romantizada que por décadas predominou na historiografia, Anita foi protagonista de sua própria história. Mulher de convicções firmes, participou ativamente da Revolução Farroupilha, das campanhas republicanas no Uruguai e da epopeia do Risorgimento italiano, lutando ao lado de Giuseppe Garibaldi, mas jamais limitada à condição de sua companheira. Seu protagonismo nasceu da convicção de que todos os seres humanos possuem o direito de viver sob governos livres, inspirados na soberania popular, na justiça social e na igualdade de direitos.
Empunhou armas em defesa da República Catarinense, da República Rio-Grandense, da República Oriental do Uruguai e da República Romana, tornando-se uma das primeiras mulheres do mundo a participar voluntariamente de movimentos republicanos em dois continentes distintos. Em uma época em que as mulheres eram excluídas da vida política, militar e intelectual, Anita rompeu paradigmas e demonstrou, por sua própria ação, que a coragem e a liderança não conhecem distinção de gênero.
Sua trajetória revolucionária jamais suprimiu sua dimensão humana. Em meio às constantes campanhas militares, enfrentando longas marchas, perseguições, exílio e privações, foi mãe de quatro filhos: Menotti, nascido no Brasil; Rosita, falecida ainda na infância; Teresa e Ricciotti, ambos nascidos em Montevidéu. Sua vida revela a extraordinária capacidade de conciliar a maternidade com o compromisso inabalável em defesa da liberdade, constituindo um dos exemplos mais singulares da história contemporânea.
Em julho de 1849, grávida de seu quinto filho, Anita participou da defesa da República Romana contra a invasão dos exércitos da França, da Áustria, da Espanha e do Reino das Duas Sicílias. Após a queda de Roma, acompanhou Giuseppe Garibaldi na dramática retirada em direção ao norte da Itália. Exausta pelas privações da guerra, acometida por grave enfermidade e perseguida pelas tropas inimigas, faleceu em 4 de agosto de 1849, em Mandriole, próximo a Ravenna, com apenas vinte e sete anos de idade. Seu desaparecimento transformou-a imediatamente em símbolo universal do sacrifício em favor da liberdade.
Entretanto, sua morte não encerrou sua história. Ao contrário, iniciou uma das mais impressionantes trajetórias de preservação da memória de uma personalidade histórica. Ao longo de mais de um século, seus restos mortais foram trasladados sucessivamente entre diferentes sepulturas na Itália e na França, em um percurso singular que simboliza o reconhecimento crescente de sua importância histórica. Foram sete sepultamentos, até repousarem definitivamente no Monumento a Giuseppe Garibaldi, no Monte Gianicolo, em Roma, local consagrado à memória da unificação italiana. Poucas figuras da história mundial tiveram seus despojos reverenciados de forma tão intensa e contínua por diferentes gerações e diferentes nações.
As pesquisas documentais mais recentes desenvolvidas em arquivos brasileiros, italianos e franceses, bem como o exame de correspondências inéditas preservadas por seus descendentes e por instituições culturais europeias, permitem hoje compreender Anita sob uma perspectiva muito mais ampla do que aquela transmitida pela tradição historiográfica. Suas cartas, juntamente com as memórias de Giuseppe Garibaldi e diversos documentos até recentemente pouco conhecidos, revelam uma mulher dotada de elevada sensibilidade, profundo espírito humanitário e extraordinária consciência política. Nelas emerge não apenas a combatente, mas também a mãe dedicada, a esposa afetuosa, a mulher preocupada com a educação dos filhos, a defensora da dignidade humana e a incansável promotora da fraternidade entre os povos.
Por essa razão, sua maior contribuição à História talvez não resida nas batalhas que combateu, mas nos valores que ajudou a perpetuar. Anita compreendia que a verdadeira liberdade somente se consolida quando acompanhada pela igualdade social, pelo respeito à dignidade da pessoa humana e pela solidariedade entre as nações. Sua vida demonstra que a guerra, para ela, nunca constituiu um fim em si mesma, mas o doloroso instrumento de defesa de princípios superiores, destinados à construção da paz e da justiça.


Reconhecida internacionalmente como a Heroína de Dois Mundos, Anita Garibaldi tornou-se uma das poucas personalidades femininas reverenciadas simultaneamente pelo Brasil, Uruguai e Itália. Na Itália, é celebrada como a “Mãe da Pátria Italiana”, integrando definitivamente a memória do Risorgimento. No Brasil, seu nome figura entre os Heróis e Heroínas da Pátria, consagrando sua contribuição para a formação dos ideais republicanos nacionais.
Dois séculos após seu nascimento, seu legado permanece extraordinariamente atual. Sob a inspiração de seu nome desenvolvem-se iniciativas culturais, acadêmicas e diplomáticas destinadas a fortalecer os vínculos históricos entre Brasil e Itália. Entre elas destaca-se o Projeto Internacional Anita Fidelis, que adotou Anita Garibaldi como símbolo da defesa da dignidade feminina e da luta contra o feminicídio, a violência doméstica e todas as formas de discriminação contra as mulheres. A Rosa de Anita, híbrido criado em sua homenagem, passou a ser cultivada em cidades da Europa e das Américas como símbolo da paz, da esperança, da liberdade e da valorização da mulher, transformando-se em uma homenagem viva ao seu legado humanitário.
A preservação dessa memória encontra importante sustentação nas atividades desenvolvidas pelo Instituto Cultural Anita Garibaldi, sediado em Laguna, instituição que vem promovendo pesquisas históricas, preservação documental, intercâmbios acadêmicos, exposições, publicações, projetos culturais e acordos internacionais voltados à difusão da vida e da obra da Heroína de Dois Mundos. Inspirado pelos princípios que orientaram Anita, o Instituto atua como ponte permanente entre Brasil e Itália, contribuindo para que sua história continue inspirando novas gerações.
As pesquisas desenvolvidas nas últimas décadas demonstram que Anita Garibaldi ultrapassou definitivamente os limites da biografia individual para tornar-se patrimônio histórico compartilhado por diferentes povos. Brasileira de nascimento, cidadã das repúblicas pelas quais combateu e heroína reverenciada em ambos os lados do Atlântico, Anita representa hoje uma das primeiras personalidades verdadeiramente transnacionais da história contemporânea.


Seu legado continua a recordar que as fronteiras políticas podem separar Estados, mas jamais os ideais que unem a humanidade. Por isso, mais do que heroína de batalhas, Anita Garibaldi permanece como uma das maiores referências universais da liberdade, da igualdade social, da dignidade da mulher, da fraternidade entre os povos e da construção permanente da paz.
Esta é uma matéria da série especial Laguna 350 Anos. Acompanhe as próximas edições em laguna.sc.gov.br/tag/especial350anos
Curadoria de pautas: jornalista Ildo Silva da Silva| Produção: Adilcio Cadorin, advogado, biógrafo de Anita e Presidente do IHGSul, e Bruno Constante Matos, Secretário Municipal de Comunicação Social



