Muito antes dos 350 anos: os Sambaquis revelam as origens de Laguna
Quem observa as lagoas de Laguna encontra uma paisagem marcada pelas canoas, pelas redes de pesca, pelo conhecimento das marés e pelo respeito aos ciclos da natureza. Essa relação entre as pessoas e as águas faz parte da identidade da nossa cidade há muitas gerações. O que poucos imaginam é que essa história começou há cerca de seis mil anos AP (Antes do Presente), quando os primeiros habitantes já conheciam cada detalhe desse território e construíam os sítios arqueológicos que hoje chamamos de sambaquis. Os sambaquieiros observavam o movimento das marés, conheciam o tempo dos ventos, acompanhavam os cardumes e compreendiam a natureza como parte inseparável da existência. A paisagem que hoje sustenta a pesca artesanal já era, naquele tempo distante, território de encontro, alimento, trabalho, espiritualidade e conexão.
Nossa cidade, possui 43 sítios arqueológicos catalogados e estes são espaços que servem de registros da vida cotidiana de povos que aprenderam a viver em harmonia com o complexo lagunar. Eles conheciam os períodos de reprodução dos peixes, identificavam os melhores locais para a coleta de moluscos, navegavam entre lagoas, rios e mar e viviam próximos às áreas onde a natureza oferecia alimento e abrigo.


Ao caminhar pelas comunidades pesqueiras de Laguna, é possível perceber que o território continua orientando o modo de vida de muitas famílias. O conhecimento transmitido entre gerações sobre os ventos, as marés, a pesca artesanal e o comportamento das espécies mantêm viva uma relação de profundo respeito com a paisagem lagunar. Embora separados por milhares de anos, os povos sambaquieiros e as comunidades tradicionais compartilham a experiência de construir suas vidas em diálogo permanente com as águas.
Os sambaquis também nos revelam que essas populações possuíam uma organização social muito mais complexa do que se imaginava no passado. Seus monumentos foram erguidos ao longo de séculos, exigindo planejamento coletivo e conhecimentos acumulados por diferentes gerações. Cada camada de conchas, restos de fogueiras, fauna, areia e sedimentos preserva vestígios da alimentação, das ferramentas, dos espaços de convivência e das práticas culturais desses povos pré-coloniais.
Entre os maiores mistérios estão os rituais realizados nesses locais. Os arqueólogos encontraram sepultamentos cuidadosamente preparados, nos quais homens, mulheres e crianças eram enterrados acompanhados por adornos, pigmentos minerais e objetos confeccionados em pedra, osso e conchas. Esses vestígios revelam que os sambaquis não eram apenas lugares de moradia, mas também espaços de memória, espiritualidade e respeito aos ancestrais, demonstrando a importância que essas sociedades de pescadores-coletores atribuíam aos ciclos da vida e da morte. O fogo fazia parte constante desses rituais, iluminando as cerimônias, aquecendo os encontros, alguns arqueólogos acreditam que serviam de comunicação entre os sambaquieiros.
Outro elemento fascinante encontrados nos sambaquis são os zoólitos, delicadas esculturas em pedra que representam animais como peixes, aves, tartarugas, jacarés, capivaras etc. Produzir essas peças exigia muitas horas de trabalho, habilidade técnica e domínio sobre diferentes tipos de rocha. No sítio arqueológico da Cabeçuda, entre as Praias do Cardoso e Cigana, por exemplo, encontramos oficinas líticas onde era possível confeccionar diversos artefatos para as atividades cotidianas dessas populações. Os zoólitos não eram apenas objetos artísticos, acredita-se que esses artefatos expressavam valores simbólicos e espirituais, revelando a profunda conexão entre os sambaquieiros e a fauna que compartilhava o mesmo ambiente costeiro.
A paisagem de Laguna preserva marcas dessa longa convivência entre seres humanos e natureza. Os sambaquieiros escolheram cuidadosamente locais próximos às lagoas, aos canais e às áreas de pesca para estabelecer suas comunidades. Ainda hoje, muitos desses espaços continuam sendo referência para pescadores/as artesanais, marisqueiras, “desfiadeira de siri”, descascadora de camarão e moradores que mantêm uma relação cotidiana com o complexo lagunar. Não quero no texto, afirmar uma continuidade direta entre esses povos, mas de reconhecer que o território permanece ensinando aqueles que dele vivem.
Infelizmente, muitos sambaquis desapareceram ao longo do século XX em razão da retirada de conchas para a fabricação de cal e da expansão urbana. Cada sítio perdido/destruído representa parte de uma história que jamais poderá ser reconstruída por completo. Preservar os sambaquis significa proteger um patrimônio arqueológico essencial para entendermos a história do nosso território e assim reconhecer que a ocupação humana de Laguna começou milhares de anos antes da fundação oficial da cidade.
Celebrar os 350 anos de Laguna também é olhar para esse passado profundo, emerso em chamados do tempo. Os sambaquis nos convidam a compreender que a identidade e a memória do município foram construídas em diálogo permanente com suas lagoas, rios e mar, envolvendo saberes, memórias e pessoas. As águas que hoje sustentam a pesca artesanal e fazem parte da vida de tantas famílias também foram fonte de alimento, conhecimento e espiritualidade para os primeiros habitantes deste território.


O Complexo Lagunar Sul Catarinense é uma vasta formação estuarina de transição com cerca de 220 km², composto principalmente pelas lagoas de Imaruí, Santo Antônio dos Anjos e Mirim. Recebe as águas do rio Tubarão ao sul e do rio D’ Una ao norte, conectando com o Oceano Atlântico na reigião de Laguna, misturando água doce e salgada. Ao longo do percurso, contamos com cerca de 90 sítios arqueológicos catalogados, sendo destes, 43 em Laguna, desde a região do Farol de Santa Marta até a Cabeçuda, Caputera, Perrixil e demais localidades do norte ao sul da cidade.
Por isso, te convidados a conhecer essa história, para juntos podemos fortalecer o compromisso com a preservação do patrimônio arqueológico, da cultura tradicional e da paisagem que faz de Laguna um lugar singular no Brasil.
Esta é uma matéria da série especial Laguna 350 Anos. Acompanhe as próximas edições em laguna.sc.gov.br/tag/especial350anos
Curadoria de pautas: jornalista Ildo Silva da Silva| Produção: Joice de Souza Avelina Costa, pesquisadora e mestra em Ensino de História, e Bruno Constante Matos, Secretário Municipal de Comunicação Social



